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EVANGELHO DE JESUS
Ora, enquanto ele dizia estas coisas, certa mulher dentre a multidão levantou a voz e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que te amamentaste. (Lc 11,27)
Hermenêutica
Roberto Pla
Uma mulher ou alma entre muitas bendiz a maternidade bem-aventurada de uma só que fez possível no mundo a presença do Cristo manifesto (v. Maria), e a isto responde Jesus bendizendo à alma bem-aventurada que ao escutar e cumprir a verdade da Palavra ou semente do Pai em seu seio semeada, torna possível em si mesma a ressurreição gloriosa do Cristo oculto.
À bem-aventurança manifesta se adita a bem-aventurança oculta, conformando ambas às duas grandes vertentes complementares que convém ser explicado e entendido o Ministério de Jesus Cristo e sua Boa Nova.
Porém ocorre que a entrada na bem-aventurança da Palavra do Pai vai precedida, segundo se descreve, por grandes sinais na alma, sinais de morte primeiro e de vida depois, porque a negação de si mesmo que Jesus predica como condição para a vinda do Filho do homem é a tribulação maior que a criação reservou ao homem.
- Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; (Mt 16,24)
- ...porque naqueles dias haverá uma tribulação tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá. (Mc 13,19)
A negação se nomeia morte voluntária da alma (psyche); aniquilação dos conteúdos desse ego mundano que todo homem natural crê ser, para abrir caminho para a iluminação do Cristo oculto, eterno, que no interior do homem espera sua ressurreição. Esta é a transfiguração dos “muitos em um”, tal como Jesus queria a todos reunidos na Jerusalém celestial, a expectativa que busca a alegria do ressuscitado mas que sabe que há de passar antes pela morte do que é mortal. Esse é o sentido do logion joanico:
- Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. (Jo 12,24)
A grandeza do evangelho transmitido por Jesus para todos é que só a morte do grão solitário abre as portas à vida e a luz da Palavra. Há que saber que um e outro, o homem nascido da carne e do homem de Acima, são os dois que estão no campo (da consciência), de onde um será tomado e o outro deixado, e este último, eu pequeno que será deixado, não abandonará seu mesquinho reino de adversário sem defender a preço de sangue cada um dos conteúdos psíquicos que ao chegar a hora ainda se mantenham sem destruição.
Daí o sentido da terceira bem-aventurança no logion, pois ela exalta o canto ditoso das almas que souberam converter-se em estéreis, vazias, secas, antes de sumir-se na “grande tribulação”. Das outras, das almas que ao apontar a transição do Ego à Palavra, ainda conservam algo de seu propósito de salvar sua vida mortal, já se advertem, nos sinópticos, as dores da solidão de sua paixão:
- Mas ai das que estiverem grávidas, e das que amamentarem naqueles dias! (Mt 24,12)
Os dias que aí se nomeiam são os “três dias” (v. Dia) que em “figura” de solidão passou o profeta Jonas no ventre do cetáceo, e que segundo vaticínio antecedem sempre à manifestação do Filho do homem.
Esta é a Paixão do nascimento messiânico, pela qual Jesus havia de passar — pela “nação”, por todos — e ao explicá-la cheio de amor pelos que mais ou menos tarde poderiam enfrentar-se com sua própria Paixão pessoal, disse a seus discípulos, segundo consta no relato joanico: